Silagem de Sorgo: da produção à utilização.

  • 17 de Ago. de 2014

A cultura do sorgo vem ganhando espaço na utilização para silagem devido a sua grande versatilidade quando comparada a outras culturas, em especial a do milho, que é a principal cultura utilizada para produção de silagem no Brasil. Assim, o sorgo se destaca por sua ampla adaptação, podendo ser cultivado em todo o território nacional, fornecendo forragem de alta produtividade de massa seca aliada à alta qualidade nutricional em diferentes épocas de semeadura. Na Região Sul, em áreas de altitude acima de 800 metros sobre o nível do mar, possui grande utilização na segunda safra ou safrinha em semeadura realizada a partir de dezembro. Nessa época, apresenta melhores respostas em rendimento por hectare de produção de leite e carne se comparado à silagem de milho, devido a sua maior tolerância ao calor (principalmente nos meses de janeiro e fevereiro) e também por seu menor ciclo, que possibilita a ensilagem antes das primeiras geadas, fator que dificilmente conseguimos com híbridos de milho semeados a partir de dezembro. Em locais abaixo de 800 metros de altitude na Região Sul e em todas as outras regiões do país o sorgo se destaca por sua maior tolerância ao calor e a estiagem quando comparado ao milho, podendo assim ser semeado na primeira e segunda safra de verão.

            Outro ponto a se destacar da cultura do sorgo é o melhoramento realizado pelas empresas que se dedicam a essa cultura. Antigamente quando se buscava um híbrido para silagem se analisava o material que possuía maior produção de massa seca ou simplesmente o qual possuía maior produção de massa verde. Hoje, com o avanço da tecnologia de avaliação e com maior conhecimento da parte nutricional, é sabido que nem sempre o híbrido com maior produção de massa seca é o material que terá maior rendimento animal em carne e leite. Com isso, o trabalho das empresas especializadas em forragens é selecionar o material que possibilita a maior rentabilidade por hectare em LEITE e CARNE.

            No Sul do Brasil, o início da época de semeadura se dá a partir do mês de outubro. Em alguns locais dessa Região é possível iniciar antes, no mês de setembro. O principal fator a ser avaliado para iniciar a semeadura do sorgo é a temperatura do solo, a qual deve estar acima de 18ºC. Com isso, a data da semeadura pode variar de ano para ano, dependendo do momento em que o solo atinja a temperatura mínima adequada para receber a semente. Somado a isso, deve-se ter umidade adequada para a semeadura. Em Regiões em que a temperatura não é fator limitante, inicia-se a semeadura nas primeiras chuvas. A data de semeadura se estende até metade de fevereiro para o Sul, e metade de abril para o restante do país.

            Um fator de grande importância é a escolha do híbrido. Existem materiais próprios para silagem e específicos para cada região, época de semeadura e nível de tecnologia adotado. Deve-se sempre consultar um técnico, a fim de saber qual material cultivar em cada situação.

Assim como em qualquer outra cultura, para a implantação deve-se fazer o tratamento de sementes com inseticidas. Algumas empresas já comercializam sementes com este tratamento. O objetivo é evitar o ataque de pragas nas fases iniciais, garantindo o estabelecimento adequado da população de plantas. Quanto à adubação, recomenda-se a análise de solo da área de forma representativa, pois há grande variação entre áreas de uma mesma propriedade de acordo com o manejo adotado pelo produtor ao longo do tempo. Normalmente, a faixa de adubação trabalhada no Brasil pensando-se no básico NPK é de 50 a 90 kg.ha-¹ de fósforo; aplicado todo na semeadura, 50 a 120 kg.ha-¹ de potássio e 50 a 150 kg.ha-¹ de nitrogênio. Nitrogênio e potássio devem ser aplicados parte na semeadura e parte quando o sorgo atingir a fase de 3 a 4 folhas verdadeiras. Com um mesmo híbrido podemos obter de 5 a 18 toneladas de massa seca por hectare, dependendo da fertilidade do solo e/ou adubação aplicada. Portanto, para se ter alto rendimento em silagem deve-se ter uma boa fertilidade e/ou adubação do solo.

            A população de plantas a ser semeada para silagem é um dos principais erros de manejo que ocorre nas propriedades. Para se obter os melhores rendimentos dos materiais para silagem devemos trabalhar com uma faixa de população final entre 150 a 180 mil plantas por hectare. Quando há variação dessa faixa para menos ou para mais ocorrem perdas consideráveis de produtividade, principalmente quando a população fica acima de 180 mil plantas por hectare, o que ocasiona problemas com acamamento e perdas de produtividade por competição entre plantas.

            O espaçamento deve estar entre 0,40 a 0,90 metro. Melhores resultados a campo tem sido obtidos com o espaçamento de 0,45 metro. Com os espaçamentos reduzidos tem-se uma melhor distribuição de plantas e também é possível ter melhor controle das plantas daninhas devido ao sombreamento mais rápido da entre linha, causado pelo sorgo.

            Geralmente nos híbridos de sorgo se tem menor incidência de doenças, outro ponto forte desta cultura. Quando se escolhe o híbrido adequado para a região e época de semeadura dificilmente se tem problemas com doenças, principalmente em híbridos de sorgo específicos para silagem, que são colhidos antes de completar seu ciclo.

            Para se obter sucesso na produção de uma silagem de qualidade, deve-se atentar para o ponto correto de ensilagem. O momento ideal para a ensilagem é quando as plantas estão com o teor de matéria seca entre 30 e 35%. Isso é muito importante. Cortar o material fora desse ponto pode ocasionar perdas significativas, pois não se aproveita a máxima qualidade nutricional que a cultura oferece. Além disso, perdas posteriores podem ocorrer no silo por má fermentação. Para se ter a informação de quando o material está com teor de matéria seca ideal é necessário retirar amostras e enviar a um laboratório especializado para análise. Com o intuito de se ter uma resposta prévia mais rápida, a avaliação visual pela panícula do sorgo é uma opção, pois tem relação com o teor de matéria seca. Não é precisa, mas é um método rápido e fácil de fazer a campo. Deve-se coletar ao menos 10 panículas representativas da lavoura. Se a metade superior da panícula estiver na fase de grão farináceo e a metade de baixo na fase de grão pastoso, isto corresponderá a cerca de 30% de matéria seca. Se a panícula estiver toda na fase de grão farináceo a matéria seca corresponde a cerca de 35%. Como já citado, este é um método prático, porém impreciso. Podem haver variações entre híbridos e em casos de condições climáticas adversas (excesso de chuvas ou seca).

            Com o manejo adequado da lavoura de sorgo pode-se obter produtividades entre 10 a 17 toneladas de massa seca por hectare, com altíssima qualidade nutricional. O ponto de ensilagem é fator determinante para se conseguir ótima qualidade nutricional. Quando cortado no ponto correto e com um híbrido de alto desempenho e qualidade conseguimos obter valores de NDT (nutrientes digestíveis totais) acima de 65% e FDN (fibra detergente neutro) abaixo de 53%, valores que caracterizam uma silagem de alta qualidade. Com um alimento assim pode-se aumentar o consumo de forragem na dieta e diminuir o consumo de concentrados. Para se obter o máximo potencial dos animais, seja em leite ou carne, não se deve trabalhar somente com volumoso. Porém, quanto melhor qualidade nutricional se tem no volumoso fornecido, pode-se reduzir a utilização de concentrados, reduzindo assim o custo da dieta total, consequentemente aumentando a rentabilidade do produtor.

            Finalmente, temos o sorgo como uma ótima opção para uma silagem de alto desempenho.  É uma cultura que pode ser utilizada em todo o Brasil e que tem destaque em várias áreas onde o milho não tem o desempenho esperado.

 

Edson Raphael Gaida

Engenheiro Agrônomo

Coordenador Técnico Atlântica Sementes S.A.